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Artigo

Da obrigação regulatória ao guia estratégico: como o Regulamento Europeu de IA pode fortalecer as organizações e os Recursos Humanos

Saiba como o Regulamento Europeu de IA pode reforçar os RH e as organizações através da governação da IA, da equidade e da supervisão estratégica.

Quando o Regulamento Europeu de IA (EU AI Act) entrou em vigor, muitas organizações encararam-no como mais uma obrigação de conformidade — e essa reação é perfeitamente compreensível.

O Regulamento Europeu de IA é o primeiro quadro jurídico abrangente para a IA e classifica os sistemas de IA em função do risco que representam para os direitos fundamentais. E abrange também as responsabilidades dos RH.

Muitos dos principais casos de utilização de IA, incluindo na área de RH — recrutamento, distribuição de tarefas e avaliação de desempenho — podem enquadrar-se na categoria de “alto risco”, o que implica requisitos mais exigentes em matéria de transparência, segurança, equidade e supervisão.

Mas aqui está a mudança de perspetiva estratégica: e se o Regulamento Europeu de IA não for um entrave — e se for, afinal, a bússola de que a organização precisava para garantir a sua preparação para o futuro?

De “AI-FOMO” à estratégia

Ao longo dos últimos anos, muitas iniciativas de IA foram impulsionadas por uma ansiedade simples: o receio de ficar para trás (FOMO). Tudo o que fosse “alimentado por IA” parecia sinónimo de progresso. Em muitas organizações, isto traduziu-se em ecossistemas de ferramentas fragmentados, “decisões de caixa-preta” geradas por IA que ninguém conseguia explicar, valor de negócio pouco claro e uma supervisão e contratualização de fornecedores inconsistente.

O Regulamento Europeu de IA obriga agora a uma pausa e a uma revisão das práticas em vigor, colocando questões a que as organizações deveriam ter respondido desde o início: que dados estão a ser utilizados e são adequados à finalidade? Os resultados podem ser explicados às pessoas afetadas? São justos, não discriminatórios e auditáveis? Existe uma supervisão humana efetiva? E estão implementados controlos ao longo de todo o ciclo de vida — desde a conceção e implementação até à monitorização contínua?

Uma perspetiva de RH: o paralelismo com a transparência salarial

Já vimos este padrão antes com a Diretiva Europeia da Transparência Salarial. Muitas organizações encararam-na, numa fase inicial, como um ónus administrativo. No entanto, as equipas de RH mais visionárias aproveitaram-na como um catalisador para rever os seus modelos estruturantes, através de:

  • Revisão das arquiteturas de funções e dos referenciais de competências, promovendo a preparação para uma organização orientada para competências
  • Modernização dos modelos de compensação, assegurando o alinhamento da política de recompensa com as estratégias de negócio e de pessoas
  • Reforço da equidade interna, garantindo maior justiça e atratividade

O Regulamento Europeu de IA pode desempenhar o mesmo papel na tecnologia de RH: um impulso regulatório que acelera uma modernização há muito necessária. Quando bem aproveitado, pode tornar-se num verdadeiro plano orientador para uma estratégia sólida de IT aplicada aos RH. Há quatro aspetos fundamentais a ter em conta:

  1. Passar de soluções rápidas para um propósito claro: Com demasiada frequência, as decisões tecnológicas começam com a pergunta: “Como implementamos a Ferramenta X?” Uma abordagem mais estratégica começa noutro ponto: “Que desafio de RH estamos a tentar resolver — e será a IA a solução certa?”
  2. Tornar a garantia de qualidade no ponto de partida: Se uma ferramenta não conseguir cumprir padrões de transparência e não discriminação, não é “inovação” — é risco. O Regulamento passa a funcionar como um filtro natural para soluções pouco éticas ou de baixa qualidade.
  3. Posicionar os RH como parceiro estratégico de governação: A IA traz os RH para a mesa da estratégia, a par de IT, legal, compliance e, em muitos países, da comissão de trabalhadores, para definir o modelo de governação. Os RH deixam de ser apenas “utilizadores de ferramentas” para assumirem um papel de arquitetos do local de trabalho digital.
  4. Tornar o desenho do trabalho com IA numa responsabilidade central dos RH: A IA está a transformar as competências de que os empregadores necessitam. Não torna as competências humanas obsoletas — altera, isso sim, a sua natureza. Os RH podem assumir um papel de liderança na redefinição de funções, papéis e responsabilidades, bem como na conceção de modelos de trabalho que combinem, de forma intencional, capacidades humanas e capacidades de IA.

IA verdadeiramente ao serviço das pessoas — e dos RH

Os RH são, acima de tudo, sobre pessoas. Por isso, um algoritmo que escala decisões e, ao mesmo tempo, amplia enviesamentos não representa progresso — representa um risco reputacional, jurídico e de negócio. O Regulamento Europeu de IA reforça o mandato dos RH para exigirem mais, tanto aos fornecedores como às equipas internas: mais transparência, evidência de justiça e desempenho, e uma supervisão humana robusta.

Quando bem utilizada, é assim que a IA pode efetivamente ajudar. Pode identificar lacunas de competências em vez de rotular ou limitar as pessoas, reduzir a carga administrativa para que os RH se possam concentrar na liderança e no desenvolvimento, e permitir decisões transparentes, sustentadas por dados, em vez de assentes em suposições. Pode também apoiar o redesenho do trabalho e a reformulação das competências, à medida que a IA continua a evoluir.

O verdadeiro impacto do Regulamento Europeu de IA: pensamento orientado para a qualidade

O Regulamento Europeu de IA não se resume ao cumprimento regulatório. Obriga as organizações a refletirem de forma mais rigorosa sobre a qualidade do seu ecossistema de IA e sobre os controlos que o enquadram. Na prática, isto traduz-se em cinco prioridades:

  1. Inventário e mapeamento: Criar uma visão dinâmica dos sistemas e casos de uso de IA (incluindo funcionalidades de IA incorporadas), respetivos responsáveis, finalidade, fontes de dados e nível de criticidade.
  2. Classificação e priorização do risco: Identificar os casos de uso com maior probabilidade de serem considerados de alto risco e priorizá-los em função da sua materialidade (impacto nas pessoas, impacto nos clientes, exposição regulatória e dependência operacional).
  3. Modelo de controlo ao longo de todo o ciclo de vida: Definir controlos mínimos em áreas como transparência, qualidade dos dados, testes de enviesamento/equidade, supervisão humana, registo de atividade, gestão de incidentes, gestão da mudança e garantia por parte de terceiros.
  4. Governação e responsabilização claras: Definir papéis, processos de aprovação, vias de escalamento e direitos de decisão entre as áreas de negócio, RH, IT, legal/compliance, segurança e risco.
  5. Monitorização contínua e evidência: Utilizar KPI/KRI, revisões periódicas, auditorias e documentação capaz de resistir ao escrutínio.

Como a Marsh pode apoiar os clientes

Os melhores resultados são alcançados quando a estratégia e a governação do risco estão alinhadas. Podemos apoiar os clientes na construção de uma preparação sólida e defensável para o Regulamento Europeu de IA, através de:

  • Avaliação de preparação/conformidade com o Regulamento Europeu de IA (análise de lacunas, revisão de evidências e definição de roadmap)
  • Implementação de modelos de governação e operating model para IA
  • Desenho e implementação de sistemas de gestão de IA (em conformidade com a ISO 42001, a norma internacional de sistemas de gestão para IA)
  • Formação e sensibilização para responsáveis de negócio e funções de controlo
  • Mapeamento de casos de uso de IA em RH e dos respetivos impactos na força de trabalho
  • Redesenho do trabalho, das funções, das competências e da arquitetura de funções para um local de trabalho potenciado por IA
  • Alinhamento das políticas de RH e dos processos ao longo do ciclo de vida do colaborador com decisões apoiadas por IA

Em conjunto, esta abordagem cobre necessidades de ponta a ponta: desde a governação empresarial até à execução em RH, sem deixar os RH sozinhos para resolver um desafio que é, na sua essência, transversal a toda a organização.

Transformar compliance em confiança

O Regulamento Europeu de IA não representa apenas uma obrigação legal, exige também o desenvolvimento de uma IA de confiança, assente numa governação empresarial madura. As organizações que o encararem como uma bússola estratégica não ficarão apenas em conformidade: irão reduzir a incerteza, proteger as pessoas e acelerar a adoção da IA com confiança. E é precisamente nos RH que esta realidade se torna mais relevante e onde uma governação sólida se torna mais visível.

Fale com o seu consultor de risco da Marsh para perceber o que o Regulamento da IA significa para a sua organização.

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As nossas pessoas

Nelia Argaz

Head, Cyber, Digital & Resilience Risks Europe, Marsh Risk Consulting

Matteo Mancini

Head of Business Resilience, Marsh Advisory

  • Italy

Manuel Coelho Dias

Manuel Coelho Dias

Senior Consultant, Marsh Advisory

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