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Artigo

Além do sinistro: o seguro como motor da adaptação climática e resiliência das cidades

Seguros, dados e soluções baseadas na natureza podem ajudar cidades a se adaptar e aumentar a resiliência frente às mudanças climáticas.

Marsh na COP30

Durante a programação da Casa do Seguro na COP30, em Belém, foi realizado o painel “Para inspirar: do planejamento à prática – resiliência, seguros e soluções inteligentes no contexto das mudanças climáticas”. O debate buscou mostrar, a partir de experiências concretas, como municípios e governo federal estão tentando transformar o discurso sobre adaptação em ações efetivas, com apoio de instrumentos de seguro, soluções baseadas na natureza e novos modelos de desenvolvimento regional.

Experiências locais e iniciativas do governo federal

Para compartilhar experiências concretas da região amazônica, dois prefeitos foram convidados: Elisângela Paiva Celestino, de Concórdia do Pará (PA), e Luiz Carlos de Aguiar Leite, de Anapu (PA). Inamara Santos Mélo, diretora do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, representou iniciativas do governo federal.

A moderação ficou a cargo do climatologista Paulo Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que abriu o painel convocando um “mutirão” entre municípios, governos e setor de seguros para enfrentar um futuro de condições climáticas extremas mais graves.

Ao longo do debate, os prefeitos apresentaram desafios e soluções locais – de bairros sustentáveis e unidades de conservação em Concórdia do Pará a projetos de ordenamento urbano, industrialização em pequena escala e uso de energia solar e água da chuva em Anapu. Inamara Santos Mélo detalhou a iniciativa Adapta Cidades e o esforço federal para integrar estados e municípios à estratégia nacional de adaptação, com dados de risco em escala local, capacitação de gestores e apoio ao acesso a financiamento.

Em comum, as falas reforçaram a necessidade de planejar cidades com a “lente climática” e de aproximar o setor de seguros da proteção de infraestrutura pública vulnerável.

Já a participação de Swenja Surminski, Managing Director de Climate and Sustainability da Marsh McLennan, trouxe ao painel a visão estratégica sobre adaptação e seguros, conectando os desafios concretos dos municípios amazônicos a dados globais de risco climático, lacuna de proteção e oportunidades de financiar a resiliência por meio de soluções baseadas na natureza, inovação em seguros e bioeconomia.

Seguros, dados e coalizão por cidades mais resilientes

Ao falar sobre o papel do setor de seguros, Swenja ressaltou que uma das principais contribuições está na compreensão de risco e no uso intensivo de dados. Seguradoras e resseguradoras trabalham com grandes volumes de informação e modelos complexos, que precisam ser recalibrados diante da intensificação dos eventos extremos.

Ela citou, como exemplo, o trabalho em cerca de 20 cidades da América Latina em conjunto com o ICLEI – uma rede global de mais de 2.500 governos locais e regionais comprometidos com o desenvolvimento urbano sustentável. A proposta é usar análises de risco para identificar onde estão as principais vulnerabilidades de infraestrutura e, a partir daí, discutir que medidas podem ser adotadas. Mas fez um alerta: diagnóstico não basta – resiliência exige investimento.

Na sua avaliação, começa a se formar, inclusive na COP30, uma “coalizão crescente” de investidores e seguradoras interessados em colaborar com cidades e comunidades para transformar vulnerabilidade em oportunidade. Swenja mencionou experiências de soluções inovadoras desenvolvidas em outros países, muitas vezes em escala local, com cooperativas e mecanismos que recompensam financeiramente comunidades que adotam medidas de prevenção e, ao mesmo tempo, oferecem proteção caso algo dê errado.

Lacuna de proteção e inovação em seguros

Swenja também chamou atenção para a grande “lacuna de proteção” que ainda existe no Brasil e na América Latina. Muitas pessoas e empresas não têm acesso ao seguro ou contam com coberturas insuficientes, o que faz com que um volume expressivo de perdas financeiras e humanas não esteja segurado. Para enfrentar esse quadro, ela destacou o avanço de abordagens inovadoras, como seguros paramétricos que utilizam dados e indicadores objetivos (chuva, seca, temperatura) para acionar pagamentos automáticos a agricultores, comunidades ou cidades que desejam proteger sua renda. Quanto melhor a base de dados, mais soluções custo-efetivas podem ser desenhadas.

A especialista insistiu que o papel do seguro não se limita a “proteger o risco”: é preciso “assegurar a resiliência”. Isso significa usar as indenizações não apenas para repor o que foi perdido, mas para reconstruir de forma mais preparada para o clima futuro.

Natureza, bioeconomia e adaptação climática

Por fim, Swenja destacou a importância da natureza e da bioeconomia na agenda de seguros e adaptação. Segundo ela, cada vez mais seguradoras estão olhando para soluções baseadas na natureza – como manguezais e florestas – não apenas como ativos ambientais, mas como infraestrutura capaz de reduzir riscos de enchentes, erosão e outros impactos climáticos.

Ela compartilhou o exemplo de uma área agrícola em que comunidades locais informavam quanto recebiam para cortar uma árvore; a proposta da iniciativa era pagar mais – o dobro – para que essas pessoas coletassem sementes e mantivessem a floresta em pé.

Para que arranjos como esse funcionem e possam ser replicados, é fundamental contar com mecanismos de financiamento e com seguros que deem estabilidade a esses fluxos. Na visão de Swenja, esse tipo de projeto sintetiza a bioeconomia: modelos em que proteger a floresta passa a ser, ao mesmo tempo, uma fonte de renda para as comunidades e uma forma de reduzir riscos para o sistema financeiro e o mercado de seguros.

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