Dr. Ariel Almazan
Advisory Leader LAC Mercer Marsh Beneficios
Há um dado que deveria gerar uma conversa urgente em qualquer comitê de liderança: 52% dos colaboradores afirmam que seus benefícios não cobrem todas as suas necessidades. Esse dado não é insignificante, e o mais revelador não é o número em si, mas o contexto em que aparece: em média, essas mesmas organizações vêm aumentando seus investimentos em benefícios há anos. Segundo um estudo global realizado em 2025 pela Marsh, "O futuro da tecnologia de benefícios", que conta com mais de 400 empregadores e 3.000 colaboradores de diferentes indústrias e regiões, cerca de 71% dos empregados considera que seus benefícios são relevantes, porém mais da metade ainda tem necessidades não alcançadas.
Isso não é um problema de investimento. É uma questão relacionada a organização estratégica dos benefícios.
Na área de Health and Benefits da Marsh observamos essa lacuna com regularidade em organizações de todos os setores na América Latina. As empresas alocam recursos, contratam fornecedores, lançam plataformas. Enquanto isso, os colaboradores, percebem que o que recebem não corresponde ao que realmente importa em suas vidas. O resultado é um ciclo sem retorno mensurável: mais custo, mais complexidade e uma proposta de valor que não consegue se conectar com a realidade da força de trabalho.
Durante anos, a estratégia de benefícios partiu de uma fórmula simples: mesmos planos, mesmas coberturas, mesma comunicação para toda a organização. Esse modelo não falha por ser antiquado em termos de tendência. Falha em termos de negócio.
As diferenças geracionais deixam isso evidente. Os colaboradores entre 18 e 35 anos — hoje o grupo mais numeroso em muitas organizações da região — não valorizam os mesmos benefícios que seus colegas com mais tempo na empresa. A geração demanda flexibilidade, bem-estar mental e apoio financeiro. Querem benefícios que façam sentido com sua fase de vida, não pacotes genéricos pré-definidos. Dados da Benefitsfocus confirmam que 84% dos trabalhadores millennials considera o trabalho flexível como o benefício mais importante, e 68% coloca a saúde mental como uma prioridade que esperam cobertura.
A personalização não é apenas uma preferência dos colaboradores. É o mecanismo que transforma gasto em valor real. Quando um benefício é percebido como relevante, há adesão. Quando há adesão, há retorno. E quando o retorno é mensurável, os benefícios deixam de ser um custo operacional para se tornar um investimento estratégico que pode ser defendido perante qualquer CFO.
A mudança mais importante nas organizações mais avançadas da região não é automatizar processos administrativos. É fazer a transição de uma lógica reativa para uma lógica preditiva.
Os modelos de inteligência artificial aplicados à gestão de benefícios permitem identificar sinais antes que se tornem problemas: padrões de sinistralidade que indicam deterioração da saúde, indicadores precoces de esgotamento profissional, sinais de risco de rotatividade vinculados à percepção de valor. Essa capacidade transforma o papel da área de RH: em vez de responder somente quando o funcionário já decidiu sair, é possível intervir quando ainda há oportunidade para fazer a diferença.
Isso requer dados de qualidade. E para isso, é necessária centralização. Hoje, uma parcela significativa da análise de benefícios na região continua sendo realizada em planilhas, com informação fragmentada entre múltiplos fornecedores e sistemas desconectados. Essa fragmentação não só gera ineficiência operacional: torna impossível tomar decisões informadas. Segundo uma pesquisa da Marsh, 80% da análise de dados sobre benefícios ainda é feita em planilhas, atrasando a tomada de decisões estratégicas.
50% das organizações já utiliza inteligência artificial na gestão de benefícios, e a maioria das que ainda não usam planeja implementar em breve.. O debate sobre adotar IA já está encerrado. A pergunta que permanece aberta é: ela está sendo usada para automatizar tarefas ou para antecipar necessidades?
Este é o ponto mais frequentemente subestimado: a melhor plataforma do mundo não gera impacto se os colaboradores não a usam, ou não confiam nela. Na mesma pesquisa citada anteriormente, “O futuro da tecnologia de benefícios", 97% dos empregadores afirmam que o software de benefícios que utilizam influencia significativamente sua capacidade de responder às mudanças e cumprir sua estratégia. Esse número diz respeito ao potencial. A adoção real é o que o transforma em resultado.
Na área de Health and Benefits da Marsh identificamos três condições não negociáveis para que a adoção ocorra.
O equilíbrio entre o digital e o humano é especialmente relevante na América Latina. As culturas organizacionais da região —e os diferentes grupos geracionais dentro delas— valorizam o acompanhamento humano em momentos importantes. Ignorar esse fator é o erro mais frequente em implementações que acabam sendo subutilizadas.
Os países da região estão em estágios distintos dessa transformação. O México lidera claramente na adoção de plataformas de benefícios flexíveis. Colômbia e Chile mostram avanços concretos. Argentina e outros mercados estão em processo de transição a partir de modelos mais tradicionais. Mas a direção é consistente em toda a região: o modelo estático de benefícios atingiu seu limite.
As organizações que integrarem centralização de dados, personalização baseada em necessidades reais e inteligência artificial com capacidade preditiva terão uma vantagem competitiva tangível na atração e retenção de talentos. As que não o fizerem continuarão investindo sem medir e mensurando sem impacto.
A tecnologia de benefícios já é um habilitador estratégico. A pergunta é se sua organização a está usando como tal.
Advisory Leader LAC Mercer Marsh Beneficios
Digital Leader LAC Mercer Marsh Beneficios
Relatório
04/27/2026