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Artigo

Capital humano sob pressão

Entenda por que o impacto das mudanças climáticas na saúde e na produtividade exige uma nova abordagem em riscos de pessoas.

As mudanças climáticas sinalizam uma crise de saúde pública global iminente: até 2050, elas devem causar 14,5 milhões de mortes e acrescentar mais de US$ 1,1 trilhão em custos extras aos sistemas de saúde. Os dados são de um estudo realizado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a Oliver Wyman, que também projetou US$ 12,5 trilhões em perdas econômicas relacionadas.

A ameaça atinge diretamente o capital humano das organizações. A KFF, organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos, estima que mais de 65 milhões de trabalhadores – quatro em cada dez no país – estejam em ocupações com alto risco de danos físicos e mentais relacionados ao clima. A vulnerabilidade se traduz em consequências financeiras e operacionais diretas, como o aumento dos custos com planos de saúde, a queda na produtividade e o crescimento no número de indenizações trabalhistas.

Diante desse cenário, as empresas precisam urgentemente integrar os riscos de pessoas ao seu planejamento estratégico de risco climático, assegurando planos de suporte e bem-estar de curto e longo prazo para a força de trabalho.

Impacto do calor extremo

Doenças relacionadas ao calor extremo surgem quando o corpo não consegue regular sua temperatura interna. A exposição prolongada pode agravar condições crônicas, como diabetes, doenças respiratórias e cardíacas, ou levar à exaustão e insolações potencialmente fatais.

Embora grupos como idosos e trabalhadores ao ar livre sejam particularmente mais vulneráveis, trabalhadores jovens em ambientes internos também são suscetíveis a lesões: altas temperaturas comprometem as capacidades cognitivas e o bem-estar físico, aumentando a probabilidade de acidentes e erros.

Essa deterioração da saúde e segurança resulta em um aumento direto dos riscos legais e financeiros para as empresas. Uma análise no banco de sinistros da Marsh demonstrou que as solicitações de indenização por acidentes de trabalho relacionados ao calor nos Estados Unidos aumentaram significativamente nos últimos 10 anos.

Já estudos da OIT mostram que a produtividade diminui quando as temperaturas ultrapassam 24°C-26°C e pode ser reduzida pela metade em trabalhos manuais quando atingem 33°C-34°C. O Lancet Countdown estima que 490 bilhões de horas de trabalho potenciais foram perdidas globalmente em 2022 devido à exposição ao calor.

As áreas de segurança e recursos humanos devem se unir na implementação de melhores práticas, como planejar atividades externas para os períodos mais frescos e garantir uma ventilação adequada em locais internos – incluindo veículos e ambientes de trabalho remoto. Também é importante criar um plano de estresse térmico que inclua treinamento, estratégias de prevenção e resposta a emergências.

Assistência à saúde física e mental deve ser prioridade

Em países de clima tropical, como o Brasil, o prognóstico de condições sensíveis ao clima também inclui a expansão de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue e Zika, além de perturbações respiratórias por exposição a poluentes atmosféricos, ansiedade e TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático). As populações mais vulneráveis em grupos de baixa renda e comunidades de difícil acesso tendem a ser mais afetadas.

Considerando a pressão crescente desse cenário sobre os sistemas de saúde, oferecer uma assistência à saúde acessível ajuda a garantir que todos os colaboradores possam continuar saudáveis e produtivos no trabalho. A pesquisa People Risk 2024, da Mercer Marsh Benefícios, revelou que 38% dos profissionais de RH e risco já estão preocupados com a falta de benefícios adequados para cobrir essas novas demandas.

Por isso, é fundamental alinhar a estratégia de benefícios à agenda climática. A monitorização dos indicadores de saúde física e mental e o mapeamento de necessidades internas podem inspirar abordagens inovadoras, como a disponibilização de plataformas digitais de assistência e benefícios flexíveis, que permitem ao funcionário customizar o pacote que mais faz sentido para a sua realidade.

Controle de custos

A proteção dos colaboradores contra novos riscos de saúde impulsionados pelo clima traz consigo outro desafio: o aumento da sinistralidade dos planos médicos, que vem desencadeando uma escalada de custos da assistência. A expectativa para 2025 é de um salto de 10,5% em relação a 2023, segundo pesquisa da Mercer Marsh Benefícios. A pressão financeira já se reflete nas ações das empresas: 66% realizaram alterações em seus planos de saúde em 2024 e 81% já planejam novas iniciativas de redesenho, tendo a contenção de custos como principal motivação.

Para navegar nesse dilema, as organizações buscam entender a fundo a percepção de seus colaboradores por meio de benchmarks e pesquisas internas, ao mesmo tempo em que renegociam contratos e buscam outras opções de fornecedores. Esse trabalho envolve estudos abrangentes do mercado para identificar oportunidades de ganhos quantitativos e qualitativos, além da avaliação de contratos e da consideração de cenários alternativos para a renovação das apólices.

Paralelamente, ações focadas em cuidados preventivos e administração de doenças também são comprovadamente eficazes, especialmente quando as intervenções são baseadas em dados.

Apoio em tragédias climáticas

Em outro estudo da Mercer Marsh Benefícios (Saúde sob Demanda 2025), 80% dos funcionários brasileiros entrevistados afirmaram que eles ou suas famílias já foram afetados por eventos climáticos extremos, com impactos concretos no custo de vida e na saúde física e mental. Há um claro apelo à ação para que as empresas estejam preparadas, mas 65% delas ainda não oferecem nenhum benefício relacionado a esse tipo de assistência.

O apoio em momentos críticos fortalece o elo de confiança com o colaborador – um ativo essencial em tempos de crise e escassez de talentos. O primeiro passo é ter um plano de resposta a emergências climáticas, que deve começar pela identificação e quantificação das vulnerabilidades dos colaboradores e suas famílias. O escopo deve incluir como os empregadores se comunicarão com as equipes e estabelecer mecanismos para que a ajuda necessária seja viabilizada o mais rápido possível.

A flexibilidade no trabalho também é essencial nesses momentos. Aqueles diretamente afetados podem precisar de um período prolongado de folga, enquanto os demais podem ter dificuldade de concentração e precisar de tempo para processar os acontecimentos. Por isso, o apoio à saúde mental é uma consideração essencial para todos. Os Programas de Assistência ao Empregado (PAE) são ferramentas vitais para conectar funcionários a serviços de aconselhamento e auxiliar em questões práticas.

Fica evidente que a jornada de adaptação climática das organizações passa, fundamentalmente, pelo fortalecimento do seu capital humano. Proteger a força de trabalho, especialmente os mais vulneráveis, ajudará a construir uma resiliência operacional e estratégica essencial para navegar e prosperar em um futuro de incertezas.

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