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Artigo

Cidades resilientes na América Latina

Seguros e inovação urbana são essenciais para destravar investimentos e fortalecer a adaptação climática, gerando cidades resilientes na América Latina.

Marsh na COP30

Durante a programação da Casa do Seguro na COP30, em Belém, a Marsh organizou o painel “Construindo a Resiliência das Cidades na América Latina”, dedicado a discutir como inovação urbana, infraestrutura e instrumentos de seguro podem apoiar a adaptação climática nas cidades da região.

Participaram Amy Barnes, Climate & Sustainability Head da Marsh Global; o embaixador Antônio da Costa e Silva, assessor internacional do Ministério das Cidades; Karla França, analista em Planejamento Territorial e Habitação da CNM; e Rodrigo Corradi, diretor do ICLEI Brasil. A moderação foi de André Dabus, diretor de Infraestrutura e Construção da Marsh Brasil.

Adaptação e o papel do seguro na resiliência urbana

Na abertura, o chairman da Marsh no Brasil, Eugênio Paschoal, lembrou que falar de cidades resilientes “tem tudo a ver com gente” – especialmente com a população mais vulnerável, que ainda convive com infraestrutura insuficiente para enfrentar eventos climáticos extremos.

Eugênio também mencionou que o país vive um ciclo robusto de investimentos em infraestrutura, estimado em centenas de bilhões de reais, grande parte via parcerias público-privadas. Esses projetos, no entanto, foram pensados em um cenário climático diferente do atual. Na prática, isso significa revisar contratos, redistribuir riscos e incorporar a variável climática desde o desenho dos empreendimentos.

Nesse contexto, ele lançou a pergunta que guiou o painel: como financiar a adaptação necessária e qual o papel do seguro para reduzir incertezas, apoiar a renegociação de riscos e transformar diagnósticos em ações concretas em favor de um país mais justo e resiliente.

Urbanização incompleta, desigualdade e nova realidade climática

Rodrigo Corradi apresentou o panorama das cidades latino-americanas, definindo a região como, ao mesmo tempo, uma das mais urbanizadas e uma das mais desiguais do mundo. Segundo ele, isso se traduz em uma “urbanização incompleta”, em que a cidade média revela a desigualdade na forma urbana e na oferta de infraestrutura: centros mais estruturados, cercados por áreas com déficit de saneamento, mobilidade e moradia adequada.

No caso brasileiro, Corradi utilizou o Rio Grande do Sul como exemplo da nova realidade climática. Em pouco mais de um ano, o estado enfrentou uma sequência de secas severas, enchentes históricas e outros eventos extremos, com custos bilionários em perdas patrimoniais e impactos humanos profundos em comunidades que já viviam em situação de vulnerabilidade. Para ele, esse cenário obriga a repensar a lógica de planejamento urbano e a forma como se estruturam os investimentos públicos, fortalecendo a cooperação com bancos de desenvolvimento e o uso do seguro como elemento complementar na proteção de ativos e na viabilização de projetos de adaptação.

Mobilidade, calçadas e cidades mais compactas e inclusivas

Ao tratar do papel da mobilidade urbana na resiliência, o embaixador Antônio da Costa e Silva trouxe uma imagem simples e poderosa: “somos um mundo de pedestres”. A partir dessa ideia, colocou as calçadas no centro do debate. Em um contexto de ondas de calor e chuva intensa, calçadas adequadas, acessíveis e seguras não são apenas detalhe de urbanismo, mas parte da infraestrutura que permite às pessoas usar a cidade com dignidade e segurança.

Antônio apresentou dados do Novo PAC, com investimentos federais em transporte público e renovação da frota de ônibus urbanos, além de um portfólio de projetos de metrô, trens e BRTs nas principais regiões metropolitanas do país. Ele também mencionou iniciativas voltadas à mobilidade ativa, como programas de incentivo ao uso da bicicleta.

Ao mesmo tempo, alertou que o volume de recursos não resolve, por si só, os problemas de governança: ainda há casos em que linhas de ônibus a diesel concorrem com o metrô no mesmo eixo e dificuldades para organizar o transporte público em regiões conurbadas.

Na avaliação do embaixador, cidades mais compactas, com transporte coletivo robusto e mobilidade ativa estruturada, reduzem desigualdades e emissões e aumentam a capacidade de resposta a eventos extremos. Nessa equação, o seguro deve ser entendido como aliado da boa decisão de investimento, oferecendo sinalização de risco e dando segurança para que projetos mais sustentáveis e resilientes saiam do papel.

Infraestrutura verde, drenagem e proteção de ativos públicos

Karla França trouxe para o debate a perspectiva dos municípios representados pela Confederação Nacional dos Municípios, cerca de 5.200 cidades com realidades muito diversas, mas um problema comum: a carência de drenagem urbana estruturante. Em muitos casos, as soluções existentes são fragmentadas e não dão conta da frequência e da intensidade das chuvas que já estão sendo observadas.

Ela reforçou que a agenda de adaptação não escala apenas com orçamento público. Obras de drenagem e infraestrutura verde exigem recursos elevados, planejamento de longo prazo e integração com políticas de uso do solo. Por isso, Karla defendeu a participação ativa do setor privado, a inovação em modelagens financeiras e a revisão de códigos de obras e parâmetros urbanísticos, para que soluções baseadas na natureza e projetos mais resilientes sejam viáveis e atrativos para investidores.

Um ponto destacado por Karla foi a proteção securitária de bens e serviços públicos essenciais, como escolas, unidades de saúde e equipamentos de defesa civil. Em muitos desastres, esses ativos são destruídos e precisam ser reconstruídos apenas com recursos orçamentários, interrompendo o atendimento à população. Modelos específicos de seguro para ativos públicos podem reduzir esse ciclo de “perder e reconstruir do zero”, garantindo continuidade dos serviços e liberando espaço fiscal para ações preventivas em vez de respostas emergenciais sucessivas.

Seguro como infraestrutura financeira da resiliência

Em sua fala, Amy Barnes mostrou como o seguro pode atuar como infraestrutura financeira da resiliência urbana. Ela lembrou que, em eventos climáticos severos, uma grande parte dos pequenos negócios não consegue reabrir, com efeitos em cadeia sobre emprego, renda local e arrecadação. E destacou que, em muitos casos, os impactos mais graves não são apenas os danos visíveis às infraestruturas, mas as consequências sobre a saúde das pessoas, especialmente em cenários de calor extremo.

Amy explicou que uma das principais contribuições da indústria de seguros é a capacidade de quantificar riscos. Ao medir a probabilidade e a gravidade de perdas associadas a um determinado evento, o setor consegue ajudar a comparar cenários, estimar o impacto de intervenções de adaptação e demonstrar o retorno econômico de investir em resiliência. Projetos que não conseguem ser segurados, lembrou, tendem a enfrentar mais dificuldade para acessar crédito e financiamento de longo prazo, o que torna o seguro um componente importante da “bancabilidade” das iniciativas.

Ela ressaltou também o papel de produtos como seguros paramétricos, que oferecem liquidez rápida após eventos extremos, permitindo que governos e empresas atendam a população e retomem operações sem interromper a agenda de adaptação. Apesar disso, Amy observou que a América Latina ainda apresenta uma grande lacuna de proteção: a maior parte das perdas por desastres não está segurada, o que significa que o peso da reconstrução recai diretamente sobre famílias, empresas e cofres públicos.

Planejamento, contratos e corresponsabilidade pela adaptação

Nas falas finais, os participantes convergiram para a importância de incluir a resiliência desde a concepção dos projetos e dos contratos. André Dabus destacou que grande parte da infraestrutura no Brasil é viabilizada por parcerias público-privadas e defendeu que esses contratos passem a prever capítulos específicos sobre cidades resilientes, com metas e recursos dedicados à adaptação ao longo de todo o ciclo dos empreendimentos.

Rodrigo Corradi reforçou a ideia de corresponsabilidade entre governos locais, bancos de desenvolvimento, seguradoras e demais atores, construindo arranjos complementares que unam infraestrutura tradicional e soluções baseadas na natureza. Karla chamou atenção para mecanismos indutores e para a necessidade de uma regulação urbana que favoreça projetos mais resilientes. O embaixador Antônio insistiu na defesa de “melhores projetos”, que podem não ser os mais baratos na largada, mas são mais sustentáveis, “verdes e azuis” e preparados para enfrentar eventos extremos.

Amy Barnes concluiu enfatizando que governos e empresas precisam explicitar, em cada projeto, qual componente de resiliência está sendo construído e como ele protege pessoas, ativos e cadeias produtivas.

Encerrando o painel, André sintetizou que investir em cidades resilientes é, ao mesmo tempo, reduzir riscos, proteger finanças públicas e privadas e criar condições para um desenvolvimento urbano mais sustentável, em que o seguro passa a ser parte estruturante da estratégia de adaptação climática na América Latina.

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