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Artigo

Novas estratégias do mercado segurador para enfrentar eventos climáticos extremos

Desafios do mercado segurador frente a eventos climáticos extremos.

Marsh na COP30

O aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos tem imposto desafios inéditos ao mercado segurador, exigindo novas abordagens de gestão de riscos e estratégias de precificação. Este foi o tema central do painel "Reflexo do Clima no Setor de Seguros", realizado na Casa do Seguro da COP30.

Moderado por Goret Pereira Paulo, da FGV, o encontro reuniu representantes da academia e do mercado para discutir como fortalecer a resiliência do setor e ampliar a proteção aos segurados. Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter Brasil, foi um dos painelistas convidados, além de Eduarda La Rocque, do IRB(Re), Jean Pierre Ometto, do INPE, e Pedro Werneck, da CNseg.

A dimensão econômica das perdas e a resposta do mercado

Avançando para a quantificação financeira do problema, Pedro Farme trouxe dados preocupantes sobre o custo global dos desastres climáticos: em 2024, o mundo registrou US$ 320 bilhões em perdas econômicas diretas causadas por eventos da natureza, segundo a ONU. No entanto, ao incluir perdas de longo prazo e capacidade de recuperação, esse número salta para US$ 2,3 trilhões. 

O executivo enfatizou que, no Brasil, essa conta acaba sendo paga por toda a sociedade, não apenas pelas vítimas diretas, devido ao impacto fiscal. Ele citou o exemplo do Rio Grande do Sul: para lidar com a recuperação do estado, o governo precisou contrair dívidas equivalentes a 1,3% do PIB, pressionando ainda mais um país que já possui alto endividamento. Para ele, o mercado de seguros deve atuar como uma provisão externa de capital, evitando que o custo recaia inteiramente sobre a dívida pública.

Tecnologia e modelagem como solução

Um dos caminhos apontados para enfrentar esse cenário é o avanço tecnológico. Farme destacou a implementação, em agosto do ano passado, do primeiro modelo probabilístico estatístico de catástrofes naturais para o Brasil. A ferramenta permitiu uma revisão matemática dos riscos e, em apenas um ano, viabilizou um aumento de mais de R$ 6 bilhões na capacidade de resseguro disponível para as seguradoras nacionais.

Ele também detalhou como a inteligência artificial e algoritmos de aquecimento global estão sendo usados para prever cenários futuros. Em uma simulação apresentada para a cidade de Belém, o modelo indicou que um aquecimento global de 2°C elevaria o risco de alagamentos na capital paraense em 96% — o que reforça a urgência de obras de resiliência baseadas em dados precisos.

Esses dados já estão sendo usados para desenhar planos de resiliência climática em parceria com estados e municípios, identificando obras críticas de escoamento e infraestrutura, cujos orçamentos giram em torno de R$ 20 a 25 bilhões.

Agilidade na resposta e massificação

Por fim, a agilidade na resposta a desastres foi apontada como um benefício fundamental dessas inovações. Farme citou o caso recente do furacão na Jamaica, onde modelos matemáticos permitiram que o mercado recuperasse quase US$ 100 milhões para as seguradoras antes mesmo da chegada dos reguladores de sinistros ao local. Essa precisão estatística permite antecipar pagamentos e acelerar a retomada das cadeias de suprimentos.

Para o futuro, ele defendeu que o grande desafio é adaptar esses produtos sofisticados para uma esteira de massificação, tornando-os acessíveis e capazes de fechar o gap de proteção do país. "A gente não está aqui para dizer que vai ser mais caro ou mais barato, mas quanto mais trouxermos capacidade e recursos, mais isso se transformará em resiliência", concluiu.

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